Pelotas

Paula prevê normalidade só depois de junho e estuda alternativas a populações ribeirinhas

Prefeita recebeu a reportagem do Diário Popular e falou sobre os desafios que o Município terá na retomada

Volmer Perez - DP - Paula afirma que dará início às discussões de adaptações que Município passará

A prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) recebeu a reportagem do Diário Popular para uma entrevista exclusiva sobre a retomada no Município, que ainda convive com alagamentos. A gestora falou sobre quanto tempo levará para a água baixar, o início de planos de contenção, possibilidade de deslocamento de comunidades ribeirinhas e a soma dos prejuízos que o poder público e sociedade enfrentarão com esta crise climática. Confira a entrevista abaixo.


Qual o prognóstico que se tem para as próximas semanas, após recuo e nova elevação dos níveis de água? Quando a Z-3, o Laranjal e as Doquinhas podem retornar à normalidade?

Desde o início, a gente viu esse comportamento das águas da Lagoa, de idas e voltas. As coisas se dão em função do vento e, de acordo com o nível da Lagoa, tem o maior nível no Canal [São Gonçalo]. Tem muita vazão no Canal [da Barra] em Rio Grande, mas a gente continua recebendo muita água de todos os lados. Os matemáticos da UFPel ainda não cravaram, mas, ao que tudo indica, o mês de junho ainda vai ser sujeito às altas e baixas. O problema disso é justamente nas áreas alagadas, sobretudo a Z-3. No Laranjal, temos as bombas que estão em funcionamento e é muito provável que as ruas fiquem secas em breve. Nas Doquinhas tem as pessoas que vivem fora do dique, essas só conseguirão voltar para a casa quando o Canal voltar ao nível normal, provavelmente ainda tenha muito transtorno ao longo deste mês, assim como o Pontal da Barra.


Pelotas não perdeu vidas, que é o mais importante. Em relação aos impactos financeiros e sociais, já se tem ideia de quais serão?

É difícil dizer. Para o poder público, temos uma queda de receitas de R$ 36 milhões no retorno de ICMS do Estado, uma previsão preliminar. Recebemos o FPM (Fundo de Participação dos Municípios, repasse federal) mais de R$ 10 milhões, mas que ainda não compensa a perda do ICMS. O Estado nos oferece R$ 1,5 milhão para horas/máquina, que é importante, ajuda na recuperação, mas não compensa o custeio da máquina e pagamento de salários. Vamos sofrer, já vínhamos em dificuldades financeiras.

Temos o microcrédito a juros zero, que foi ampliado a R$ 10 mil e ampliado o prazo de carência para 24 meses. O ISS [Imposto Sobre Serviço, municipal], para microempresas nós isentamos dois meses. Estaremos ao lado dos empreendedores e famílias nessa situação. O Auxílio Reconstrução deve contemplar de cinco a seis mil famílias, em termos de empreendedores a gente calcula que tenha em torno de dois mil, entre pequenos e médios, e esse programa [anunciado hoje, ver página 8] a gente acredita que possa chegar a 300 empreendedores beneficiados. Queremos buscar o apoio também aos 850 pescadores, que recebem o seguro defeso, junto à Câmara de Vereadores, se consegue fazer algum aporte [retorno do duodécimo].

Quais medidas para a retomada o Município terá, tanto em espaços públicos afetados quanto nos retornos das famílias às casas?

A gente fechou alguns abrigos, mas essa polêmica em torno do Edmar Fetter [no Laranjal], o pessoal foi conversar para ver quem estaria apto e quereria voltar agora, porque oferecemos auxílio de volta, com ônibus e caminhões levando material, colchões, cestas básicas e produtos de limpeza. A gente vai acompanhar essas famílias durante algumas semanas em casa, distribuindo estes materiais quando precisarem. Não estamos expulsando as pessoas, mas em algum momento a escola vai voltar a funcionar, afinal, estamos usando uma Escola, e não tem muitos espaços no Laranjal. Vamos ver se tem alguma casa para alugar, até porque a gente não sabe quando essas pessoas vão poder voltar ao Pontal, tem muita destruição lá. Vamos precisar de apoio do governo federal e do Estado, tanto o governador quanto o ministro Paulo Pimenta tiveram aqui e disseram que estarão conosco nessa reconstrução nos espaços destruídos, nas vias, pontes, e já pudemos acessar alguns recursos para isso.​


Vivemos período de muitos recursos federais, pelo PAC e de emendas parlamentares. Com esses recursos à disposição, quais obras serão necessárias para o Município estar preparado no sentido de proteção a estas situações climáticas?
Projetos de habitação, obviamente, já estamos cadastrados no Minha Casa, Minha Vida e no PAC Calamidade. Vamos investir em habitação popular, é importante oferecer alternativa à população que vive em áreas de risco. No Pontal da Barra e Z-3, não é simplesmente oferecer uma área, por exemplo, no Pestano, porque são famílias que vivem da pesca e têm essa cultura arraigada ao local. No Pontal, vamos avaliar com detalhe e tranquilidade o que é possível fazer, porque é a área mais vulnerável. É possível proteger aquela área, haverá licenciamento ambiental para fazer dique ou sistema de proteção? Se não for, temos que conversar com a comunidade e buscar a alternativa aceitável, porque eles não querem de jeito nenhum sair dali. São 70 famílias que tem a permissão de viver ali, tem que se ter essa discussão e vai precisar de investimentos.

Temos uma obra de R$ 12 milhões com o governo federal. Vamos avaliar se essa estrada definitiva é suficiente. Em princípio, sim, ela é alta e terá sentido se protegermos toda a área, inclusive lá no Pontal. Na Z-3, a área do Cedrinho e Junquinho talvez não tenham alternativas de contenção, é uma área que não tem como ter moradia, a não ser que a gente possa efetivamente fechar o arroio sujo. O meu governo vai começar essas discussões, mas provavelmente não termine neste ano.

Temos projeto de fortalecimento do dique no Laranjal cadastrado no PAC. Tem o conflito brutal com aquelas famílias na Nova Prata, o início do alagamento foi ali, quando as pessoas tiraram [o dique]. Porque com o dique a gente segura a água na casa das pessoas, é uma construção irregular, inaceitável. Se a gente fizer o projeto no PAC, aquelas famílias ou vão ficar sempre embaixo d'água ou terão que ser realocadas. Talvez haja uma alternativa bem mais custosa de repensar o leito daquele canal [de escoamento que deságua no São Gonçalo]. Na Estrada do Engenho, a gente vai discutir com os técnicos e engenheiros a altura do nosso dique.


A construção civil tem avançado muito. Parece que há uma queda de braço, inclusive, entre ambientalistas e poder público neste debate. Como o Município vai encarar essa questão a partir de agora?

Iniciativa privada, o empreendedorismo, a ampliação da zona urbana de um lado, a especulação imobiliária de um lado, o poder público e ambientalistas, é um caldeirão. A gente tenta buscar o equilíbrio. Ao longo do tempo, a construção civil se expandiu para o Laranjal, uma área que margeia o Canal São Gonçalo e é alagável. Construíram-se bairros, condomínios, prédios em uma zona que é expansão natural do Canal São Gonçalo. A engenharia resolve muita coisa, tanto que esses bairros não foram alagados, o dique conteve.

Empreendimentos fora do dique foram aterrados, mas para onde vai essa água? A gente precisa discutir isso com muita tranquilidade e buscando o melhor para a cidade. Não vejo, necessariamente, o poder econômico como inimigo do meio ambiente. Se a gente quiser salvar a humanidade, a gente precisa juntar o desenvolvimento econômico e respeito ao meio ambiente. Proibir tudo não é uma solução, porque a gente precisa gerar riqueza e renda. Não adianta proteger o meio ambiente e ter pobreza e miséria, como não adianta o desenvolvimento econômico sem freio porque a natureza mostra que a conta vem. É uma questão planetária, mas Pelotas precisa encontrar caminhos equilibrados, de geração de riqueza, desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente.


A UFPel teve um papel preponderante nesta situação de crise. É uma parceria que pode se aprofundar a partir de agora, não apenas no aspecto ambiental?

Sem dúvida. A gente sempre teve uma grande parceria, mas acho que aquém das possibilidades. Tem-se pesquisadores de ponta, reconhecidos no mundo, na saúde, agronomia, questões climáticas, que a gente nunca tinha tido este espaço. Às vezes a Universidade fica intramuros e o poder público não vai lá bater na porta. Que bom que há esse encontro de interesses e necessidades que pode resultar algo tão importante no futuro. A ciência nos ajudou muito nesse trabalho integrado. Convidei essa equipe que nos auxiliou para estar juntos na agência de desenvolvimento e pensar estratégias. ​

Inclusive essa equipe apresentou muitas demandas ao poder público...

Sim, o radar meteorológico, por exemplo. Tanto o governador quanto o ministro pareceram estimulados a resolver este problema. A relação poder público e Universidade simbolizou o que aconteceu neste momento, de união, superar diferenças em torno de um objetivo comum, que era proteger a cidade. Que sirva de lição e inspiração.

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